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Pouso Fora - Coletânea de Contos
(por
Francisco Leme Galvão
- abr96)
...
pouso fora de pista ABVV é o Alfa Uno... Prossiga
Alfa Uno.. Alfa Uno 10 minutos fora; É a mensagem do
piloto de mais um planador, iniciando o seu planeio
final, numa competição de vôo a vela. Planeio este,
que muitas vezes, dependendo das condições
meteorológicas, é iniciado a mais de 40 Km de
distancia da pista de chegada, sem que esta seja
sequer visível no horizonte!
Antes
da “era GPS”, era proibido o uso de auxílios
eletrônicos à navegação em competições, o que
tornava esta fase do vôo, uma das mais emocionantes,
exigindo do piloto cálculos precisos para a obtenção
do tempo mínimo de vôo, ou quando não, simplesmente
chegar ao objetivo....
Diferentemente de um avião, onde se navega
praticamente com rumo e altitude constantes, num
planador a rota mais rápida é um zig-zag passando
sob os melhores cúmulos, ou sobre os pontos do solo
mais favoráveis ao aquecimento solar. A altitude de
vôo é também variável o que dificulta a estimativa
do efeito do vento, ampliado pêlos períodos de
subida em círculos, nas térmicas. As vezes, com o
sol de frente, bruma, e a sombra de nuvens cobrindo
o aeródromo de destino, mesmo com este a apenas 10
km na proa, nada se vê, o altímetro marcando 450 m e
caindo e ...nada,... Haja confiança nos cálculos.
Em 78,
eu competia em Bauru voando um Urupema, planador em
que o piloto voa deitado de costas (numa acrobacia a
referencia são os seus pés!) e cujas dimensões da
cabine fazem com que o simples ato de abrir para
leitura um mapa, mal dobrado previamente, se torne
uma proeza impensável. Gripado, meio febril e um
tanto quanto perdido em minha navegação depois de um
vôo bastante difícil, fiquei girando num “zerinho”
(térmica fraca de 0,5 m/s) a 1800 m, criando coragem
para iniciar o planeio final pois os cálculos
indicavam que Bauru estava ao alcance mas...
invisível. Foi quando vi o SB-5 (planador com menor
planeio e mais lento que o Urupema) voando reto a
uns 150 m abaixo, e numa direção distinta de 15
graus da que eu pretendia seguir. Sabia que o piloto
do SB-5 era o multi-campeão Cláudio Junqueira, e não
tive dúvidas: Desavergonhadamente segui-o, abrindo
um pouco o freio de tempos em tempos para não
ultrapassa-lo, e mantendo-me a uns 100 m atrás de
sua cauda para não perde-lo de vista Voei assim
cegamente, até que não só a cidade mas também o
aeroporto se esparramaram enormes em torno do nariz
do Urupema, ou seja, de meus pés.
No
nacional de 83, também voando Urupema, estava sobre
Agudos distante apenas 16 Km do aeroporto de Bauru,
mas entre eu e meu objetivo havia uma sólida cortina
de chuva. Com a informação obtida pelo radio, que na
pista não chovia, subi numa ascendente encontrada
sob a base escura da nuvem até 1200 m, o dobro da
altura necessária em condições normais e estiquei a
120 km/h de encontro à parede liquida. O mundo e eu
viemos abaixo. Escureceu, que mal dava para ver a
bússola (se fazendo de horizonte) e o altímetro
desenrolando. Um barulho de catarata do Iguaçu. Até
que, finalmente a luminosidade foi aumentando e saí
da chuva, com sol, mas a 200 m. Altura suficiente
para sobrevoar a renomada “casa da Heni” (deu até
para ver as “moças” na piscina) e pousar direto nos
primeiros 100 metros da pista! As mãos tremiam ao
apanhar o microfone para chamar a equipe, pelo radio
pois não me tinham visto pousar.
Hoje
graças a permissão do uso desta pequena maravilha da
tecnologia espacial, o GPS, a única emoção da fase
de planeio final é a de puro “relax”. A satisfação
da tarefa completada. após a batalha, sempre a
procura das melhores térmicas ao longo da rota, mas
agora sabendo exatamente, aonde se esta. ABVV, Alfa
Uno a 5 minutos fora. A vontade é de completar
gritando Uahhh !!!! 4 minutos depois os espectadores
na pista já podem vislumbrar 10 graus acima do
horizonte como que um pequeno cometa branco. Aos
poucos o cometa vai tomando forma e se pode
distinguir um planador com seu lastro de água sendo
alijado formando uma longa esteira branca contra o
fundo azul do céu vespertino. “Shshshshshshshshshshshshshsh.”
Com o ponteiro do velocímetro no final do arco
verde, o piloto cruza a 75 m acima da faixa de
chegada e num gracioso “pull off” entra na perna do
vento, confirma trem em baixo travado para o
controle da ABVV e pousa encerrando um vôo de 240 Km
e a luta contra o relógio iniciada 2,5 horas antes.
Agora
é estaquear a máquina, entregar o filme e a ficha de
prova na secretaria, e ir com a equipe calcular os
pontos, assistir ao pouso dos retardatários, e repor
os litros de água transpirados durante o vôo com
...cerveja. Este é o epílogo normal de 90% dos vôos
numa competição de vôo à vela. E os 10% restantes?
Ah..estes 10% são aqueles vôos com pousos fora de
pista, ou como dizem na França onde os pastos não
tem cupim, é preciso literalmente “aller aux vaches”
(juntar-se as vacas). Pois é, por mais emoções que
tragam as provas completadas, é muitas vezes nestes
10% restantes que residem as emoções mais marcantes
de uma competição ou de um vôo de navegação em
planador.
Nos
meus 36 anos de vôo a vela, participei de 16
campeonatos nacionais e de outras tantas competições
regionais acumulando uns 2000 vôos dos quais uns 300
de navegações em planador. No entanto, foram
pouquíssimas as navegações completadas que ficaram
na minha memória: Por exemplo aquele triângulo de
300 Km, Pirassununga/ Matão/ Ribeirão Preto/
Pirassununga, voados em pouco mais de 3 horas, em um
“Jantar” lastreado com 150 l. de água, com as bases
das nuvens a 3000 m e subidas em térmicas de 3 a 5
m/s, demarcadas por colunas de poeira. Um vôo
simplesmente orgástico! Em contrapartida acho que me
lembro de TODOS os meus vôos que terminaram fora de
pista e alguns deles, eu acho, merecem ser contados:
Kamikase: Meu primeiro vôo em competição foi também
o primeiro deles. Voava um Grunau Baby, projeto da
década de 30 com o “fabuloso” planeio de 1/18.
Naquela época (1960) não se dispunha de câmaras
“foto-timer” e as partidas eram feitas abaixo de
1000 m para que os “felizardos” nomeados como
juizes, (condenados a bronzeamento forçado) pudessem
com binóculos, identificar o prefixo do planador, e
ainda julgar a sua altura com o auxilio de um
dispositivo de triangulação. Mal atingindo 900 m e
verificando que a faixa de partida já estava
estendida ao lado do hangar, coloquei a proa no rumo
da prova e “sentei a pua” ....Evidentemente até o
chão onde pousei num terreno arado, para só então
ficar sabendo que havia acabado de sobrevoar sem
notar, uma pista agrícola.. Gol...! No dia seguinte,
mais experiente, dei partida a 980 metros e rumei,
sem tanta pressa, e em direção à nuvem cumuliforme
mais próxima do rumo. Pude assim, de nuvem em nuvem,
prosseguir por 55 Km quando acabei descendo para 250
m sobre uma fazenda de café com um campinho de
futebol e um vasto terreiro cimentado, para o qual
aproei. Só na perna do vento percebi que o terreiro
era cheio de estacas finas (apoio para lona de
proteção do café, em caso de chuva)!. Minha única
opção tornou-se o campinho de futebol. Glissando
abri os ineficientes freios aerodinâmicos do Grunau
e passei por cima da trave, entre os dois eucaliptos
que ladeavam as marcas de “corner”. Toquei no meio
de campo e ao perceber que ia marcar um gol do outro
lado, comandei um cavalo de pau metendo a asa
esquerda no chão! Wrummm! O Grunau rodopiou e a roda
saiu levando com ela o assento e o fundo da cabine,
me deixando dentro desta, mas ...sentado na grama !
Pingaiada. Graças ao trabalho noturno do, então
marceneiro de nosso clube, Bruno della Torre, e ao
mau tempo do dia posterior eu pude competir, ja na
próxima prova, com a fuselagem cheia de tirinhas de
compensado pregadas com preguinhos e coladas com
cola de caseína. Ainda não existia cola epoxi e os
planadores de madeira quando tomavam chuva recendiam
a leite podre por semanas! Desta vês consegui
progredir uns 60 Km e sobrevoar o ponto de retorno
sempre com boa altura, mas na volta, tendo decido a
300 metros, escolhi um vastíssimo campo arado, e
pousei bem no centro. Com a terra fofa e molhada da
chuva do dia anterior o Grunau não correu 15 m e
estacou. Eu estava aprendendo. Sob um sol de rachar
caminhei com grande dificuldade na terra rocha,
atolando até as canelas, e já pensando nos palavrões
da equipe de resgate. Ali não entraria nem jipe,
quanto mais o meu “fusca” puxando uma carreta!
Depois de meia hora de caminhada cheguei morto de
sede (deixara a garrafa d’água na cabine!) no
casebre de pau a pique, que eu avistara durante o
tráfego, na borda do terreno. Era domingo e a porta
estava encostada. Bati e como não respondessem,
empurrei e dei de cara com três caboclos sentados
e... completamente bêbados! Pedi um copo de água.
“ÁGUA ? De jeito maneira, seu moço. Sô vai é bebê
cum a gente”. Só depois de tomar uma boa dose da
branquinha é que consegui que finalmente me
trouxessem uma canequinha amassada e uma moringa de
uma água de poço e de aparência mais do que
duvidosa. Bebi toda!. O ronco de um rebocador
sobrevoando o Grunau nos colocou todos para fora
sacudindo os braços.
Aliviado pelo fato de não precisar caminhar até um
telefone mais próximo, voltei para o planador onde
tive que escutar horas do papo lerdo e repetido dos
meus três “sinceros” admiradores Em contra-partida,
mesmo antes da chegada de minha equipe, já mais
sóbrios, arrastaram “no braço”, o Grunau até perto
da estrada. Acho que nem preciso dizer que após este
pouso, no restante da competição quando não
completei as provas, tratei de pousar em pista . ET
Em 64 no Campeonato de S. José dos Campos, competi
voando na “Fauvel AV-36”, um planador em forma de
asa voadora construída no CTA a partir de plantas
francesas. Na ida de uma prova para Guaratinguetá,
voei junto com os outros dois pilotos de S. José
pilotando dois “Olímpia Meise” de desempenho
semelhante ao do Fauvel em planeio (1/24) mas com
menor afundamento e portanto melhores para subir em
térmicas. Para o cálculo dos pontos das provas, ha
um sistema de Handicap para corrigir as diferenças
entre os planadores de desempenho distintos,
tornando a competição equilibrada, pelo menos
teoricamente. Mas na prática, como resultado da
diferença de desempenho eu era obrigado a bancar o
“boi de piranha” abandonando as térmicas antes deles
para localizar a próxima. Mal encontrava uma térmica
e começava a girar e lá vinham os dois como “urubus”
a girar acima de mim cada vês um pouco mais altos,
até que após Taubaté ganharam uma dianteira
considerável. Na volta de Guaratinguetá fiquei baixo
sobre a serra Quebra-Cangalha e tentando chegar a
Taubaté tive que pousar num arrozal da fazenda
Mazzaropi, local onde hoje é o aeródromo do
esquadrão de helicópteros do exército, o BAVEX.
Apesar
da planura do arrozal, o atrito do patim sem rodas,
somado a pouca inércia em arfagem daquela aeronave
“cotó”, fizeram-na capotar no finalzinho da corrida.
Preso pelos cintos lá fiquei eu de cabeça para
baixo, sem poder abrir a cabine presa de encontro ao
solo. Naquela situação, não demorei a descobrir qual
a função, até então para mim desapercebida, das
sobrancelhas humanas, quando o suor do rosto passou
a cair diretamente dentro de meus olhos. Após
minutos que pareceram horas, vi através do que me
sobrava como visão as pernas dos lavradores
japoneses se aproximando. Quando chegaram perto
comecei a falar explicando aonde deveriam segurar
para desvirar aquela tartaruga emborcada. Qual não
foi o meu espanto quando ao ouvirem a minha voz, os
“japas” fizeram 180 e dispararam numa fuga
desabalada só parando a uns 50 metros. Enchendo o
que podia os pulmões sob a pressão dos cintos,
gritei que não tivessem medo, e que precisava da
ajuda deles, e pouco a pouco foram se aproximando,
ainda ressabiados. Finalmente consegui com que
desvirassem a asa, e pude sair. Sob o olhar sempre
desconfiado dos “japas” (ou seria imaginação minha?)
seguimos juntos até um barzinho para eu telefonar e
comer um dos melhores sanduíches de mortadela que
provei até hoje. Foi então que o dono do bar me
contou que uma hora antes ele olhando por acaso para
o céu havia visto o passar três aviões estranhos que
não faziam barulho! Um em forma de morcego! O
morcego ia sempre na frente e os dois atrás. Só
podia ser coisa de extra-terrestres e de disco
voador. A notícia e a explicação correram pela roça!
Estava explicada a razão do pânico. As avarias da
capotagem não me permitiram competir na prova
seguinte de distancia livre em que os pilotos Münch
e Guido Pessoti foram até Botucatú (240 Km) e Plinio
Junqueira fês um notável pouso fora; pousou
simplesmente no Ibirapuera, em pleno coração da
cidade de S. Paulo! Num hospital próximo, Migues,
piloto de S.José, (que em 95 cruzou o atlântico num
“Varieze”), se restabelecia na ocasião, das
queimaduras sofridas em um acidente de avião. Em
pânico por ver passar um planador a 200 m de sua
janela, botou a emergência do Hospital em polvorosa!
. O aeromodelo que cresceu. Uma das provas que da
direito a um piloto de planador usar a insígnia
denominada “brevet de ouro” é a de percorrer uma
distancia 300 Km, e se o destino for pré-fixado
pode-se anexar ao ouro um diamante. Já tendo direito
ao Brevet de prata (um vôo de 5 horas, 50 Km
percorridos e ganho de altitude de 1000 m) em 1967
iniciei minhas tentativas de conseguir o dourado
galardão.
Com os
planadores da época (Olímpia e Neiva BN-1) era
necessário se aguardar ocasiões muito especiais, que
só aconteciam em março ou outubro no terceiro dia
após a passagem de uma frente fria e evidentemente
coincidente com um fim de semana! Era preciso
decolar cedo por volta das 10 da manhã com condições
ainda fracas. Após uma primeira tentativa na qual
posei na várzea de Jacareí (15 Km) em outubro de 64
consegui chegar até a pista de Piracicaba (200 Km) .
Em Março do ano seguinte ocorreu novamente a
condição esperada e decolando as 10:00, as 11:15 já
estava sobrevoando Cumbica a 1000 m. Entusiasmado
com as condições, segui veloz aproando para Franco
da Rocha para a travessia da Mantiqueira como havia
feito sem maiores problemas no vôo anterior. Desta
vês porem um ciclo de nuvens se desfazendo me fez
perder altura em demasia e cheguei nas montanhas sem
altura para atravessa-las. Voltando em direção a
Cumbica encontrei as mesmas descendentes e o que é
pior, agora com o vento de frente. A pista foi
subindo em relação ao nariz do planador e percebi
que não mais conseguiria atingi-la. Em baixo ruas
casas e os eucaliptos da Vila ....Galvão (chiii..que
nome.)! Tinha que ser por ali mesmo. A esquerda
havia uma praça de tamanho razoável e sem
calçamento. Entrei de freios abertos e glissando por
sobre uma rua e plaquei o Olímpia estolado no meio
da praça. O choque fez a cabine se desprender e
voar, mas a fera parou em menos de 30 m. Bem em
frente um bar de um japonês (de novo!). Foi a
primeira vês que vi um nipônico de olhos
redondos.......era de espanto. Telefonei para S.
José pedindo resgate e fiquei aguardando enquanto
uma pequena multidão vinha em romaria apreciar
aquela estranho avião sem hélice. Eis que chega um
fusca amarelo e dele salta nada mais nada menos, que
meu ex-colega dos tempos de ginásio em Guaratinguetá
o Antônio Carrijo, que parou estupefato, olhando
hora para mim, hora para o planador tentando
recompor as idéias. Acontece que o “Tonho”, estava
em Cumbica, participando de uma competição de
aeromodelismo com modelos de planadores da classe
FAI Nordic A2. O aeromodelo do “Tonho” havia sido
pego por uma térmica e desaparecido na direção da
Vila Galvão. Procura planador aqui, procura ali, lhe
disseram que um havia descido na praça! E realmente
ele lá estava, ....mas a escala era outra! Rimos
muito, mas como nunca mais o vi, até hoje não sei se
ele encontrou o seu modelo!.
Este
pouso deixou minhas pretensões à insígnia dourada,
abaladas por um bom tempo. Finalmente em 5 de
Novembro de 67 consegui meu brevet de ouro com um
diamante, voando um “Olímpia” de S. José até a pista
da fazenda “J.O”. (então famosa por sua aguardente
homônima), a 20 Km ao sul de Bauru, Um vôo sem
incidentes e de apenas 5 horas e meia. Valeu! Uma
Recuperação Homérica No nacional em Bauru, acredito
que em 66, choveu nos dois primeiros dias, e o
terceiro amanheceu ensolarado, mas com aquele
mormaço típico de janeiro e siriêmas cantando
chamando chuva. Nem precisávamos das previsões do
meteorologista Vilela, para imaginar o que nos
aguardava.. O Vilela é um ex-volovelista e o
meteorologista que até hoje mais colaborou com a
ABVV em campeonatos. É carinhosamente apelidado de
“bruxo” pelos pilotos, pois diz a lenda, que sempre
que chega e abre sua pesadíssima mala de
instrumentos (sempre a mesma, e que já o acompanhou
até a Antártida) dela saem Cbs (nuvens Cúmulus
Nimbus), stratus, e relâmpagos! Já na hora da
largada, uma linha de Cbs se aproximava de Noroeste
e todos pilotos esperavam que a prova fosse
cancelada, mas o diretor de provas era Guido Pessoti,
piloto que conseguiu um ganho de 5000 m de altitude,
voando dentro de um Cb, conquistando o seu terceiro
diamante e sendo o primeiro brasileiro a obter estas
3 insígias FAI. Não deu outra. Fomos rebocados e a
faixa de abertura da prova foi estendida já com
dificuldade, pois na pista já chegavam as primeiras
lufadas.
Como a
prova era para o o sul pudemos sair todos levados
pela mini-frente de vento, voando sem perder altura
a uns 800 m. Para complicar a região em baixo, o
vale do Rio Turvo era só uma “quiçassa” de vegetação
do tipo cerrado! A 30 Km fora, eu ainda “ciscava”
tentando subir, tendo ao lado um BN-1 de Bauru voado
pelo ex piloto da Luftwaffe, o saudoso Geraldo
Prockesh. O topo de cirrus do Cb nos ultrapassou
sombreando tudo, e embora estivéssemos ainda a uns
550 m eu avistando em baixo um pequeno quadrado
arado ao lado de uma roça de milho, abri os freios
do PBS (o único planador pintado de preto que já
conheci), e me despejei fazendo um pouso de porta
aviões. Tudo perfeito, não fosse um pé de milho
isolado que atingido pela cauda, revidou enfiando
uma espiga de cima para baixo através da tela do
profundor.. Saí as pressas, enterrei as estacas no
chão e amarrei as cordinhas já debaixo de chuva.
Nisto apareceu o dono da roça gesticulando e
apontando para o alto e vi então no meio da chuva o
vulto do BN-1 que vinha para pouso. Passou por um
milagre ao lado de um pau seco e se estatelou
rodopiando em pleno milharal. Corremos eu e o
roceiro esperando pelo pior, mas achamos o Prockesh
ileso e praguejante, ja fora do BN-1, este sim com a
fuselagem e a asa esquerda partidas ao meio. Fomos
para a casa do roceiro tomar um café horrível mas
quente, torcer as roupas, e esperar o chuvarão
passar, por umas boas duas horas ao lado do fogão de
lenha. Telefone? Ele não tinha a menor idéia onde
encontrar um, mas a BR passava a uns 8 km e havia um
cavalo. Era só encilhar.
Relembrando as muitas férias de infância passadas na
fazenda de meu tio, lá fui eu com o garoto filho de
roceiro montado na garupa em busca da BR . O
terceiro caminhão me deu carona e meia hora depois
eu estava na sala de coordenação do campeonato
negociando a recuperação. Todos haviam pousado fora
e telefonado e as carretas e equipes disponíveis já
haviam partido. Recuperação só no dia seguinte pela
manhã! Pelo menos é o que eu pensava. Para encurtar
a história a recuperação levou dois dias e foi
preciso abrir uma picada e usar um antigo leito de
estrada de ferro para que as 2 carretas puxadas por
jipes chegassem ao local do pouso. Ficou marcada a
frase do Prockesh, proferida de facão na mão
cortando o mato e encharcado de suor: “Agorra...uma
zerrvejja jjelada, erra melhorr que uma ato zexuall”!!
Os últimos dias de Pompeia No ano seguinte estávamos
nós dois, novamente competindo em Baurú, eu agora no
BN-1 de S. José e Prockesh no BN-1 de Baurú,
totalmente recuperado e de pintura nova. Na prova de
ida e volta a Tupã, por pura coincidência,
encontramo-nos de novo a baixa altura e com uma
tremenda tempestade pela frente, próximo à cidade de
Pompeia. Desta vês Prockesh foi o primeiro a pousar
e escolheu um terreno arado bem junto às primeiras
ruas da cidade e eu segui o exemplo pousando
praticamente ao seu lado. Rapidamente giramos os
planadores com a cauda virada a 45 graus para o
vento que já começava a levantar poeira, enterramos
as estacas , e amarramos a cauda, a roda e uma ponta
de asa. A poeira vermelha e o vento aumentaram de
tal modo que não se enxergava a mais de 5 metros. Aí
desabou o aguaceiro acompanhado por raios e rajadas
de vento. A estaca da asa, sob a qual eu me abrigava
foi arrancada e fui me agarrar qual um carrapato na
cauda, cuja estaca ameaçava ter o mesmo destino. O
planador tremia e sacolejava qual um potro bravo e
eu mal conseguia abrir os olhos tal a violência da
chuva. Lembrei-me do livro que li na infância
chamado “Os últimos dias de Pompeia” e pensei: La na
Itália foi com o Vesúvio e aqui no Brasil vai ser
com um diluvio! Depois de uma meia hora o temporal
foi amainando e eu já podia vislumbrar o vulto do
outro planador, e lá estava ele, com o Prockesh
também agarrado a sua cauda. O vento cessou e nos
dois como dois pintos encharcados nos dirigimos à
cidade a procura de um telefone. As notícias não
nada eram animadoras: quase todos os competidores
haviam pousado fora Se tudo corresse bem seríamos
resgatados de madrugada.! A cidade não tinha hotel
mas somente uma pensão, que funcionava na casa de
uma japonesa, que logo se prontificou a enxugar a
ferro as nossas roupas. Os ânimos melhoraram e
muito, quando envergando shorts e camisetas
emprestados dos filhos nisseis, nos sentamos em uma
mesa, tendo a frente um bife acebolado, arroz,
salada, ovos fritos, e.... uma garrafa de caninha
tipo exportação “Tirich Mir” cujo nome e conteúdo
foram excelente estimulo para meu colega germânico.
Já escurecia, quando terminamos o jantar, o papo, e
as libações, de barriga cheia e roupinha quente. O
negócio era descansar, e por isso aceitamos de bom
grado a oferta de um quarto com dois colchões
estendidos sobre o assoalho de tábua. Deitamos, e
graças à “Tirich Mir” sem nos incomodamos com a
torcida dos nisseis que mais brasileiros que muitos
outros de olhos redondos, ouviam um jogo de futebol
no rádio a todo volume, pegamos no sono.
Dormi
e sonhei que estava comendo camarões....mas eles
estavam vivos e faziam cócegas na boca! Acordei,
cuspi e acendi a luz..... Meu Deus! Estávamos
rodeados por dezenas de baratas. Eu acabara de
cuspir uma das mais afoitas das que tinham vindo me
farejar! Acordei o Prockesh e de luz acesa ali
ficamos sentados até que finalmente as 3 da
madrugada ouvimos o barulho dos jipes e das equipes
percorrendo a rua a procura do “Hotel 100 estrelas”
que nos abrigara! Lanche nas nuvens O vôo dentro de
nuvens em competições só foi proibido, aqui e no
exterior após o mundial de 72 na Yugoslavia. Naquele
campeonato, para o qual o Brasil enviou 2 planadores
Urupemas e tive a honra de ser chefe de delegação,
ocorreram dois acidentes devido ao vôo em núvem: Um
de colisão e outro com a destruição por granizo de
um planador (um Cobra polonês) e do pára-quedas, com
que Lajos seu piloto húngaro, tentou se salvar!
Assim em 68 no campeonato brasileiro de S.José do
Rio Preto o vôo em núvem ainda era “legal”, e eu
voava um “Olímpia” equipado com um “pau e bola” (turn
& bank) movido pela aspiração de uma enorme corneta
externa (venturi) cujo arrasto devia roubar pelo
menos 1 ponto de planeio. Na volta de uma prova
S.José-Votuporanga havia no céu 5/8 de convidativas
torres cumuliformes. Seguindo a prática então
corrente aguardei dois minutos após o planador que
voava acima de mim desaparecer engolido pela base
escura de um tremendo cúmulus congestus, e me dirigi
em direção aos fiapos típicos que se formam sob a
mesma, marcando a região de ascendente máxima. Girei
quando o variômetro marcou 4 m/s de subida, mas
assim que a paisagem externa foi encoberta pela
névoa cinza o ponteiro colou nos 6 m/s! A
transformação do vapor d’água (gás transparente)
contido no ar ascendente, nas gotículas
microscópicas de água que formam a nuvem, e que é
causada pela queda de pressão e temperatura com a
altitude, devolve ao ar o calor fornecido (pelo sol)
para evaporar a água junto ao solo. É este calor
adicional que torna as ascendentes dentro das
nuvens, sempre mais fortes do que abaixo delas.
Agora,
era esquecer o variômetro e concentrar toda a
atenção no “pau e bola”, na bússola e no velocímetro
mantendo uma curva suave mas o mais “redonda”
possível. Se me descontrolasse era só abrir
totalmente os freios de mergulho e largar tudo, que
as coisas acabariam se consertando ainda que com
sensível perda de altura. No “Olímpia” estes
potentes freios limitam a velocidade abaixo da Vne,
até mesmo em picada vertical. Mas, e se isto
ocorresse com o piloto voando acima de mim? Bem a
defasa-gem de dois minutos garantia naquela
ascendente uma separação de nível de teoricamente no
mínimo 700 m.... A 3500 m o “miolo” da nuvem, até
então suave, começou a apresentar turbulência e a
subida caiu para 2 m/s. Era hora de cair fora o que
fiz tentando fixar a bússola a NW, afim de evitar
entrar na zona de descendente ou de chuva da nuvem.
Esta deveria estar a sudeste pois como observara
antes de entrar em vôo cego, os topos se inclinavam
nesta direção empurrados por um forte vento NW em
altitude. Saí da nuvem sem outros problemas do que
aquela estranha sensação que se sempre se tem ao
recuperar visibilidade: a de que é o horizonte
terrestre que esta torto (dificilmente se sai
nivelado Um ligeiro cálculo com o ábaco de planeio
final mostrou-me que Rio Preto estava dentro do
alcance mesmo que conservasse uma velocidade de 10
Km/h acima da de planeio máximo.
Chequei o mapa, retomei o rumo , “trimei” meu
“ginete” a 95 km/h, e pilotando apenas com os
joelhos (no manche) e os pés, abri um sanduiche e a
garrafa de suco de laranja e iniciei um lanche
deslizando entre altas torres brancas encasteladas,
lindo! E fui assim descendo, descendo, até que notei
que já estava bem abaixo das bases, que haviam
ficado para traz e que Rio Preto já a vista, parecia
estar alto demais acima do nariz do planador! Outro
cheque de navegação e calculo confirmaram, mesmo com
planeio máximo faltariam 5 Km! Lanchando fascinado
pela paisagem eu me descuidara do variômetro, e não
percebera o quanto o ar descia entre aquelas torres
brancas. Voltar para baixo das nuvens era perder
muito tempo numa tentativa incerta pois no final da
tarde elas se tornam enganadoras. A esperança era
encontrar na rota alguma daquelas térmicas
sonolentas e fracas do final do dia! Mas nada... Com
apenas 100 m a mais daria para chegar na pista de
Mirassol, mas nada!.... Escolhi um bom arado e
pousei ao lado da estrada bem perto da sede da
fazenda para facilitar o resgate (gato escaldado). A
fria recepção inicial dos donos do lugar,
transformou-se no entanto numa calorosa acolhida com
direito a um daqueles lanches fartos de fazenda, com
quitutes e doces de botar corada qualquer sinhá
mineira. Qual foi o milagre? O meu sobre-nome
exposto no crachá alfinetado no boné, fora o
responsável por aquela inesperada subida de estatus.
De um simples piloto caído, fui promovido a santo,
pois era irmão do conhecido padre Galvão, aquele do
programa “Marreta na Bigorna” da Radio Aparecida,
famoso por todos estes Brasis interioranos onde
ainda não se conhecia a TV.
Pouso
fora... em pista Meu PP-ZUM, um KW-1 “Quero- Quero”
envenenado com: trem retrátil, e asa com “winglets”e
bordo de ataque laminar, tinha o desempenho 10%
superior aos demais KW-1 competindo na Classe B, ou
Olímpica! Com ele, pude me dar ao luxo de completar
todas as provas e não mais pousar fora de pista. Uma
única exceção ou quase isto, foi no brasileiro de 87
em Luziania (Go) numa das raras provas de 300 Km na
classe B. Estava sendo seguido de perto pelo “Areia”
piloto de Bauru, e após o primeiro ponto de virada,
fomos praticamente “catapultados” de 200m a 2500 m
por uma violenta fogueira de queimada de cana de
açúcar. Depois de voar por 30 Km sem achar nada de
aproveitável, e embora já estivesse com quase 200 km
percorridos achei que as condições em frente não
iriam permitir completar a prova e acabaria pousando
fora de pista. A única alternativa ao alcance era a
pista de Cristalina, cidade que eu vira passar no
travéz ao Norte. . Fiz 180 e voltando cruzei com o
“Areia”, que sem entender o que estava acontecendo
chegou a circular para verificar sua posição e
concluir, como mais tarde me contou, que eu devia
ter “pirado” com a fumaça da fogueira. Cheguei alto
(500 m) em Cristalina, mas por mais que procurasse e
checasse todas as referências no mapa não encontrava
a pista de pouso. No local previsto havia apenas um
grande terreno arado com uma especie de “estradinha”
na parte sul. Seu “varadista”, pensei: abortou a
prova para não pousar fora e é isto que vai ter que
fazer! Escolhi a melhor parte da “estradinha” e
entrei no tráfego. Só ao abrir os freios no meio da
reta final é que avistei os pneus cortados alinhados
de cada lado da “estradinha”! Cobertos de pó eram
praticamente invisíveis do alto e sem saber estava
pousando exatamente na pista de Cristalina. O piloto
do Ipanema que veio me rebocar de volta para
Luziania trouxe também a notícia que justamente o
“Areia” tinha sido o único a completar a prova e
agora liderava a Classe B. Era impossível não ficar
remoendo: se ele completou, eu com um planador 10%
superior também teria certamente completado. No dia
seguinte voei mal e alem do “Areia” também o
Penteado, piloto do Rio de Janeiro (que hoje virou
acrobata do ar) também completou com tempo inferior
ao meu. Fechei o campeonato em terceiro, mas mantive
a tradição: o PT-ZUM nunca pousava fora de
pista..... mesmo sem saber que era pista !.
Pelo
menos até que, no sábado de carnaval de 85, decolei
em Ipuã rebocado pelo Piper de nosso clube pilotado
pelo Ten. Chester, recebendo instrução de reboque,
dada pelo piloto Adolfo. Em plena decolagem, a uns
40 m do chão, o motor parou, no que me consta,
devido ao fechamento da torneira de combustível
erroneamente acionada em lugar do compensador do
profundor. Para completar (um acidente nunca resulta
de uma única causa) eu havia desviado os olhos para
abrir o fecho, da janela de ventilação da cabina,
que no Zum ficava ao lado na altura de minha da
cintura. Quando olhei para frente, não havia mais
avião! Para os lados também não, e o localizei já a
uns 20 m abaixo de mim descendo em direção ao fim da
pista. A de Ipuã só tem 1200 m. terminando numa
valeta, seguida de cerca, estrada, e linha de força.
Desliguei o cabo e entrei numa curva para a
esquerda, com o nariz em baixo para não estolar, e
super fechada para não me chocar no morro que ladeia
a pista. Foi o meu único pouso fora com o PP-ZUM.
Foi também meu último com ele! Não pousei, bati! Num
brejo, a apenas 15 m ao lado da pista de Ipuã,
derrubado por uma embauveira que não vi, e que me
agarrou a asa esquerda, quando eu já me considerava
pousado e livre daquela inesperada “pane de motor”,
da qual nem mesmo os pilotos de planador, estão
livres. Felizmente saímos vivos, tanto eu como os
pilotos do Piper. Este só quebrou a cauda, ao cair
de ré na valeta, depois de um perfeito “cavalo de
pau”, comandado pelo Adolfo. Mas o PP-ZUM! Perda
total. Cadê o pó Em 92 com uma mãozinha do Fernando
de Almeida descolei um patrocínio da FORD e fui
competir na classe A no Campeonato de Campo Mourão
(PR) voando o “Jantar” do clube, e com equipe
completa e uniformizada. . A quinta prova foi um
triângulo com vértices em Cianorte e Maringá e até o
meio da segunda perna havia cúmulos perfeitos, e
voamos de acordo com os manuais, sem problemas Daí
para frente era um grande azulão com cúmulos somente
depois de Maringá. Para as “maquinas” com planeio
maior que 1/40, dava para atravessar tranqüilamente
mas para as demais, a alternativas eram: ou fazer um
grande desvio para leste sob os cúmulos, ou tentar
alguma coisa nos minúsculos pufs brancos que surgiam
na rota. Optei erroneamente pela segunda alternativa
e a 10 Km de Maringá pousei numa plantação de soja
ao lado da Br ligando Maringá Cianorte. Perto havia
uma cidadezinha e em poucos minutos o planador
estava forrado de marcas de terra rocha deixadas por
dezenas de mãozinhas de donos de infindas cabecinhas
curiosas e douradas dos garotos do local. Ofereci um
prêmio para quem encontrasse a hélice, dizendo que
ela havia caído lá no meio da soja, e assim por uns
minutos fiquei livre para ordenar as coisas e fechar
bem a cabine. O pior estava por vir, e chegou na
forma de uma Brasília branca da qual desceu um
barrigudo e desgrenhado delegado com um 32 na mão.
Cadê o
pó ? Vamos abrir essa joça toda aí pra mim revistar.
Mas sou pilot..... Nada de papo! Num vem que não
tem! Cadê o pó? Abri a cabine, ergui o banco, abri o
compartimento da bateria e todas as janelas de
inspeção e quando ele cismou de abrir o pára-quedas.
protestei e tentei argumentar. A coisa começou ficar
preta mas fui salvo pela chegada de uma viatura da
polícia de Maringá com um grupo de policiais
chefiados por uma simpática tenente. Ufa! O
delegadelho embora sem entender direito ouviu as
explicações da tenente, que soubera do campeonato
pela imprensa local Muito a contra-gosto concluiu
que não tivera a mesma sorte de um colega seu, que
um mês antes ficara famoso na imprensa, apreendendo
um Bonanza pousado em pane, carregado de cocaína
Enfiando finalmente o 38 entre as fraldas da camisa,
partiu cabisbaixo.
Reboque duplo As recepções aos pilotos que pousam
nas fazendas variam entre das extremamente
acolhedoras às manifestações de hostilidade
completa. O estrago causado nas plantações pelo
próprio planador, é geralmente pequeno, mas o grande
problema decorre das pequenas multidões que acorrem
ao local de pouso, pisoteando tudo em volta num raio
de 50 metros ou mais. Mas até mesmo o pouso em
pistas particulares pode apresentar problemas. como
por exemplo, ocorreu na pista da Fazenda Amália, a
sudeste de Ribeirão Preto, e que abriga a única
fábrica do hemisfério sul, capaz de produzir ácido
acético a partir de cana de açúcar. Os seguranças da
Fazenda só não prenderam como espiões, eu e mais
dois pilotos que lá pousamos, porque o quarto que
chegou era um tenente da Academia da Força Aérea.
Mas entre todas as recepções que tive, ha uma muito
especial, resultante de um vôo de translado, não
menos especial. No final do campeonato de S. José do
Rio Preto o translado de retorno para S.José dos
Campos, do Olímpia em que competí e do nosso biplace
Neiva-B foi feito em reboque duplo! Ou seja, um
único avião puxando dois planadores, e de quebra, o
“Neivão”, apelido carinhoso do nosso PT-PAS ainda
levava como passageiro o então marcineiro do clube
Pedro Lemos. O dia amanheceu com uma cobertura a 300
m mas o piloto do rebocador, Guido Pessoti ainda
amuado pela sua classificação de vice na competição,
decidiu partir assim mesmo. Recusei-me a
acompanha-lo e dei boas risadas quando dois minutos
depois, estavam de volta na pista o “Neivão” e o
Piper, após uma decolagem seguida de um tráfego “por
instrumentos”.
Daí a
uma hora, o dia abriu, a cobertura se fragmentou em
cúmulos, e todos partiram, menos nós. Do Guido nem
sinal Só la pelas 11 chegou ele, se recusando agora
a me levar por que eu não quisera decolar da
primeira vês. Me fiz de desentendido e enquanto ele
checava o avião pedi a alguém para ligar também o
cabo do Olímpia na cauda do Piper. Mal tive tempo de
fechar a cabine e prender o cinto e o avião decolou,
me arrastando com uma asa ainda no chão. Decolou e
nivelou a 300 m, e a 300 m continuou. Quem já fez
reboque duplo sabe como é trabalhoso. Agora
imagine-se a 300 m com aquela turbulência toda do
início do dia somada a um ventinho leste. Um
inferno!. Ora era a minha corda que afrouxava, ora
era a do “Neivão”. E lá vinha o tranco. E se aquele
gancho do desligador não agüentasse?! Ja decidira:
que se passasse alguma pista ou arado plano eu
desligaria, mas nada. Só pastos e arvoredos.
Finalmente depois de uma hora naquela “pauleira”,
acho que cansado de tanto puxa-puxa, Guido ergueu o
nariz do Piper e fomos para 950 m voar no ar calmo,
acima do nível dos cúmulos. Ufa! Foi um sossego e eu
e o piloto do Neivão (me lembro que tinha o cabelo
claro, seria o Renato?) pudemos respirar aliviados.
Eram uns 5/8 de cúmulos, e isso somado ao vôo
“rasante” inicial fizeram com que o líder de nossa
esquadrilha de 3, se sentisse um tanto confuso
quanto à sua localização e decidisse voltar para
baixo da camada, para checar melhor sua posição. Só
que o fez reduzindo bruscamente a manete, nos
obrigando a abrir os freios para não ultrapassar o
Piper, o que fizemos simultaneamente. Bum! O tranco
foi demais para o maltratado elo da corrente. Desceu
o Piper e ficamos nós, o Olímpia e o Neivão,
flutuando ligados por uma corda dupla formando um
“U” de 80 m. Após alguns segundos de estupefação
acionamos, novamente simultaneamente, os
desligadores, e vimos o “U” descer sumindo em
direção ao solo. Agora era cada um para si.
A uns
5 Km a esquerda havia uma pista de fazenda e o
Neivão para lá se dirigiu seguido pelo Piper que
circulara de volta como uma galinha a chamar os seus
pintinhos desgarrados!. Como as térmicas estivessem
razoáveis, eu poderia até haver tentado um vôo
térmico com o Olímpia até Bauru, já a vista no
horizonte, mas decidi acompanhar meus sócios de
desventura, e abrindo os freios posei. Guido já
estava decolando novamente rumo a Baurú onde iria
buscar novas cordas e assim não assistiu a chegada
poeirenta de uma caminhonete da qual saiu um
fazendeiro furibundo. Isto aqui é propriedade
particular, e vocês não podem pousar sem permissão.
E continuou aos berros: Esta pista está interditada
pois instalaram fios de alta tensão na cabeceira! Só
depois de algum tempo é que se acalmou o suficiente
para notar que nossas aeronaves não tinham hélice e
nem mesmo motor. Indignado entrou na caminhonete,
malhou a porta e voltou de onde viera levantando
nova nuvem de poeira. Procuramos uma sombra de
árvore e la ficamos nós na certeza de que o Guido na
decolagem tivesse notado os postes com fios na
cabeceira. Mas aquele realmente não era um de seus
melhores dias! Uma hora depois retorna o Piper e ao
corrermos para a pista lá estava o avião parado em
posição atravessada, com o piloto do lado de fora,
em pé, fixo como uma estátua a olhar para a asa. 30
cm do bordo de ataque esquerdo tinham sido levados
pelo fio, que só por um milagre não tinha entrado
pelo para-brizas, decepando a cabeça do piloto. A
poeira na estrada marcou o retorno da caminhonete da
qual desceram agora, dois homens! E ambos furiosos!.
Um,
era o nosso ja velho conhecido fazendeiro e o outro,
mancava, com a roupa toda suja e gesticulando com um
relógio de pulso quebrado na mão Era um eletricista,
que a 500 m dali reparava os fios e escorregara
poste abaixo, agarrado pelos braços, quando seu
cinto de apoio se rompeu, devido ao tranco dado nos
fios pelo avião. Não fosse por este reparo, a força
estaria ligada e Guido poderia ter morrido
eletrocutado ou incinerado pelo avião em chamas .
Após ouvir novo sermão do fazendeiro, dito também
aos berros, e a promessa do Guido de indenização
pelos prejuízos causados, (inclusive um relógio
novo) fomos para a estrada conseguir carona para
Baurú. Lá o velho e lendário Kurt, que já havia
emprestado as cordas, nos forneceu também o material
para um reparo de emergência no bordo de ataque do
Piper. A distancia sendo curta fomos rapidamente
rebocados, só que um por vez, mas ao completar o
segundo reboque, e pousando ja no por do sol, o
Piper rodopiou no meio do asfalto! Estourara o pneu
esquerdo!
Felizmente no final da corrida. Deixei o “Olímpia”
hangarado em Baurú e só voltei para busca-lo, duas
semanas depois.... pelo chão com carreta! “Yo no
creo em brujas, mas...” Texas Brasileira Não
faltaram no entanto algumas recepções calorosas e
agradáveis. Certamente nenhuma como aquela que li na
“Soaring”, onde um piloto na Califórnia pousou na
pista de uma colônia de nudismo. Convidado para
participar de um jantar com os “naturalistas”, ainda
durante o banho de chuveiro tomou a corajosa decisão
de entrar na “onda”. Ao descer as escadas nu em pêlo
como quando nasceu, foi recebido por com uma
calorosa salva de palmas! Em respeito a ele, todos
os convivas em torno da mesa, estavam totalmente
vestidos. Não, eu não tive que me despir, quando
pousei de Urupema em Lençóis Paulista, em pleno
churrasco de domingo. Notando um movimento aéreo um
tanto inusitado para uma pequena cidade sem controle
de tráfego, anunciei meu pouso pelo rádio em várias
freqüências sem obter qualquer resposta. Esta só
veio no chão, na forma de um caneco de alumínio com
chope geladíssimo recebido assim que abri a cabina.
Quem o oferecia era o Simeonni, o “Careca”, que tal
como eu, aprendera a pilotar, “solando” nos velhos
J3 de sapata do Aeroclube de Botucatú em 1960.
Agora, alem de piloto, fazendeiro, decidira
transformar Lençóis, na Texas do vôo brasileiro,
patrocinando tudo que voasse, e ele mesmo, pilotando
tudo que saísse do chão! Foi um reencontro e tanto.
No céu passavam T-meias fazendo piruetas, ultraleves
de todos os tipos e formatos enquanto que
pára-quedas coloridos se despejavam de um velho
Beech B, o vulgo “mata sete”! Um pôr do sol de
dourado e rosa completava aquela paisagem
inacreditável. E tomando chopes, saboreando uma
tenra picanha e relembrando “causos” que só os que
voam sabem apreciar, já não mais me lembrava da
prova que não completara. Ali estava a essência do
vôo de navegação em planador. O eterno inesperado. E
era bom. MUITO BOM! Como, assim espero, será o nosso
reencontro um dia no Texas do além, saudoso Simeoni.
Abril / 96 Francisco Leme Galvão.
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